O secretário de Estado Adjunto da Presidência, Rui Armindo Freitas, reconheceu que o debate parlamentar sobre imigração “resvalou para quase xenofobia”, mas reforçou que o Executivo manterá uma postura “de moderação” — ainda que não descarte negociar com o Chega para aprovar o pacote legislativo.
O que muda na prática
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Nacionalidade – Pais estrangeiros só transmitirão cidadania automática aos filhos nascidos em Portugal após três anos de residência legal; naturalização passa a exigir 7 anos (CPLP) ou 10 anos (demais países).
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Reagrupamento familiar – Dependentes maiores de 18 anos precisarão de visto próprio, salvo incapacidade; cônjuges e filhos menores só poderão ser reunidos após dois anos de residência dos patrocinadores.
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Testes de língua e cultura – Aplicados no ato da nacionalidade, algo já previsto na maioria dos países europeus, segundo o governo.
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Perda de cidadania – Possível para naturalizados condenados por crimes graves.
Por que o tema ficou explosivo
Portugal teve 1,55 milhão de imigrantes legalizados no fim de 2024 (projeção de 1,6 milhão em 2025), mais que o dobro de 2018, com brasileiros respondendo por um terço desse total. sicnoticias.pt Somam-se cerca de 400 mil processos pendentes na Agência para Integração, Migrações e Asilo (AIMA), gerando filas e atraso na documentação. theportugalnews.com
Nesse contexto, o partido Chega, de extrema-direita, capitalizou a insatisfação: conquistou 58 cadeiras (22,6 % dos votos) na eleição de maio de 2025 e tornou-se a maior força de oposição, empatado com o PS. reuters.com O governo minoritário da coligação de centro-direita enfrenta, assim, o dilema de aprovar as mudanças sem alimentar a retórica anti-imigrante.
Compatibilidade com normas europeias
Freitas afirma que todas as medidas seguem a Diretiva 2003/86/CE, que permite exigir até um ano de residência antes do reagrupamento e prever provas de integração. A proposta portuguesa eleva o prazo para dois anos, dentro da margem de manobra concedida pelo texto europeu. eur-lex.europa.eu
O que esperar
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Negociação intensa nas próximas semanas: PS resiste, mas pode ceder em pontos técnicos; Chega pressiona por regras ainda mais duras.
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Ajuste de serviços públicos: o governo promete reforçar a AIMA e acelerar digitalização para reduzir o passivo de processos.
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Impacto na comunidade brasileira: exigência de tempo maior para nacionalidade e novo teste de língua devem afetar diretamente quem chegou nos últimos anos, mas a regra dos 7 anos (CPLP) mantém vantagem frente a outros grupos.
Apesar do discurso inflamado no plenário, Freitas insiste que “não queremos separar famílias nem fechar portas”; a meta, diz, é “recalibrar” o sistema migratório sem comprometer a integração — equilíbrio que será posto à prova nas próximas votações.



